
patriarcal sedenta de poder e rigidamente machista. Mas, mesmo assim, alguns luminares
mulheres, uma nos interessa especialmente: Hildegard von Bingen, autora da primeira citação
do uso do lúpulo na fabricação de cerveja de que se tem notícia (1067).
Hildeberto de Bermersheim, portanto, de família nobre, tinha saúde frágil e aos 8 anos foi
entregue a uma tia monja beneditina, para ser criada em um mosteiro e receber uma educação
religiosa. Desde cedo ela passou a ter visões místicas que lhe possibilitavam, entre outras
coisas, demonstrar um alto grau de clarividência e de premonições. Hildegard escrevia tudo o
que lhe acontecia, e suas visões se transformaram num livro chamado Scivias (Conhecer o
Caminho). Ela relatou sobre suas visões a grandes teólogos da época, como Bernard de
Claivaux. Foi ele quem enviou uma parte dos manuscritos de Hildegard para o Papa Eugênio
III, em Trieste. Profundamente impressionado, ele endossou os trabalhos de Hildegard bem
como suas visões.
Ela foi uma extraordinária pensadora, uma grande filósofa e teóloga. Ela era uma freira que -
coisa raríssima na época - fazia sermões públicos, que, além de atrair pela riqueza de
conteúdo o povo de sua época, atraia multidões pelo carisma e pela grande beleza física que
possuía, como podemos ver pelas iluminuras que a representam e pelos relatos sobre ela.
Dentre outras qualidades, ela era compositora (suas músicas foram recentemente gravadas),
escritora, médica, botânica. Ela possivelmente tenha sido a primeira cientista ativa, após a
destruição definitiva da biblioteca de Alexandria.
Quando a tia que a criou no convento, e que era Abadessa, faleceu em 1136, Hildegard foi
eleita a nova Abadessa. Durante mais de 25 anos, ela escreveu um número extraordinário de
documentos e trabalhos sobre a relação humana com o plano divino da criação. Também
produziu fascinantes estudos sobre botânica e medicina. Compôs 77 canções litúrgicas para
uso do convento, e algo como um oratório dramático intitulado Ordo Virtutem. Já com uma
idade avançadíssima para a época, aos 72 anos ela voltou a Rhineland para pregar aos
clérigos e aos leigos da necessidade de reformas urgentes na Igreja, que estava visivelmente
corrompida por assuntos nada espirituais. Por toda a vida, ela escreveu centenas de cartas
para as pessoas das mais diversas classes e níveis sociais. Por conta de sua coragem,
Hildegard foi muito atacada por toda a sua vida. Morreu aos 82 anos, em Rupertsberg,
Alemanha e foi beatificada pela Igreja católica, sem nunca ter sido formalmente canonizada.
dos druidas, acreditava-se que Deus não seria apenas homem, não teria apenas
características masculinas, Deus seria Pater-Mater. O Ser Supremo teria também um lado
feminino, ou uma "natureza feminina" (a Deusa, adorada pelos druidas). Afinal, a mulher teria
sido também criada à Sua imagem e semelhança, ainda que os padres torcessem o nariz para
tal pensamento e culpassem a mulher pela vinda do pecado ao mundo. Em grego, a palavra
para o lado feminino de Deus é Sophia, e significa sabedoria.
A crença sobre a natureza materna de Deus também estava presente entre os cristãos
primitivos, antes de Roma obter a hegemonia sobre os rumos da Igreja. Mas ela manteve-se na
Igreja do Oriente, a chamada Igreja Ortodoxa, e entre os judeus durante a Idade Média, mas
caiu em completo esquecimento na Europa ocidental (graças ao machismo romano). Só com
Hildegard von Bingen é que é que ela teve um rápido lampejo de retorno. Em vários de seus
êxtases místicos, ela conta que viu Sophia a andar ricamente vestida, procurando um meio de
se dar à conhecer ao mundo. Quando Hildegard morreu, conta-se que seu espírito,
rejuvenescido, foi visto várias vezes andando e cantado pela capela, com uma expressão de
doce júbilo no rosto. Ela cantava a sua mais conhecida canção: O Virga Ac Diadema.